Entre a obstinação e o cuidado: a medicina precisa reaprender a lidar com a morte

Foto: Divulgação
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Dr. Fabio Vilas-Boas

Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular

Academia de Medicina da Bahia



A morte foi sequestrada pelos hospitais, pelas UTIs e pela lógica da intervenção sem limite. É hora de humanizar o fim da vida, combater a distanásia e recolocar a família ao lado de quem parte.

Recentemente, a brilhante Professora LudhmilaHajjar trouxe à tona, em um artigo para o Jornal O Globo, um assunto que a medicina brasileira deve encarar de forma mais sincera: a morte. E foi uma boa iniciativa. No mundo moderno, a morte se tornou algo excessivamente medicalizado. O que antes acontecia em casa, cercado de vínculos, espiritualidade, memórias e presença, agora acontece em hospitais, rodeado de monitores, ventiladores e UTIs. A morte se afastou da experiência humana e familiar, transformando-se, em muitos casos, em um evento técnico, solitário e muitas vezes excessivamente interveniente.


E a consequência disso é bastante clara. Milhares de pessoas acabam seus dias longe da família, conectadas a máquinas, passando por procedimentos invasivos que, em muitos casos, não mudam o resultado. Em vez de acolher, criamos distância. Ao invés de estarmos presentes, delegamos tudo à tecnologia. A medicina moderna nos ensinou a fazer muito, mas nem sempre nos mostrou quando insistir deixa de ser cuidado e se torna obstinação.


No Brasil, esse problema se torna ainda mais delicado, pois a formação médica continua a se concentrar na cura, reversão, sustentação e prolongamento da vida. Essa vocação é nobre e essencial. Porém, ela encontra um limite quando lidamos com doenças irreversíveis e tratamentos que não oferecem benefícios reais. Nesse ponto, muitos profissionais, por dificuldade de reconhecer a terminalidade, acabam adotando medidas que prolongam a vida sem necessidade, resultando na distanásia.


Distanásia refere-se ao prolongamento artificial do processo de morrer, através de intervenções fúteis ou desproporcionais, aumentando o sofrimento, a angústia e o desgaste do paciente e de sua família. Há relatos de que mais de 30% de todos os leitos hospitalares brasileiros estejam ocupados por pacientes crônicos sem perspectiva de melhora. Mas é evidente que uma parcela significativa dos leitos, especialmente os de alta complexidade, é ocupada por pacientes em fase avançada e irreversível de doença, muitos deles submetidos a terapias invasivas sem um ganho real em qualidade de vida.


Muitos desses pacientes estariam em melhor situação ao lado da família, em casa com o suporte correto, ou em leitos de hospitais de transição e cuidados paliativos. A UTI, embora crucial para salvar vidas reversíveis, nem sempre é o melhor ambiente para quem está na fase final da vida. Às vezes, o melhor cuidado não é fazer mais, mas fazer de forma diferente.


É por isso que precisamos defender claramente a ortotanásia. Ortotanásia não é eutanásia, e essa diferença precisa ser reafirmada de maneira clara. Eutanásia envolve encurtar a vida de forma intencional, algo que sou contra. A ortotanásia, por outro lado, permite que a morte ocorra em seu tempo natural, quando a doença é terminal e irreversível, evitando intervenções desnecessárias, mas assegurando alívio da dor, controle de sintomas, conforto, escuta, presença e cuidado.


Quando fui Secretário Estadual da Saúde da Bahia, ao lado do Governador Rui Costa lançamos, em 2018, a política estadual de cuidados paliativos, que serviu de base para a política nacional, lançada pelo Presidente Lula em 2024. Estruturamos equipes de paliação em mais de 50 unidades hospitalares estaduais, ampliamos equipes de atenção domiciliar para pacientes em fim de vida e criamos o Hospital Mont Serrat, em Salvador, o primeiro hospital público do país dedicado à paliação. Ali, debruçado sobre a Baía de Todos-os-Santos, buscamos unir espiritualidade, natureza, ambiência e cuidado qualificado, tornando a travessia final menos dolorosa e mais significativa.


Tenho a alegria de ter ajudado a construir essa mudança de olhar.


E posso dizer que em breve a Bahia receberá um espaço privado inspirado nessa mesma filosofia de cuidado. O Hospital Casa de Retiro São Francisco nascerá como um lugar de cura espiritual,reabilitação, transição assistencial e paliação, pensado para unir ciência, compaixão, presença familiar e sentido humano. Será um hospital que reconhece que nem sempre é possível curar, mas que sempre é possível cuidar, e cuidar bem. Tudo isso em uma ambiência concebida com atenção aos pequenos detalhes e com uma hotelaria hospitalar premium, rara mesmo entre instituições semelhantes no mundo.


A boa medicina não deve medir seu sucesso apenas pela capacidade de adiar a morte. Ela também precisa ser avaliada pela maneira como lida com a finitude. Humanizar a morte significa trazer a família de volta ao lado do leito. É permitir despedidas. É minimizar o sofrimento desnecessário. É reconhecer limites sem deixar ninguém para trás. É substituir a obstinação pela sabedoria, a solidão pelo afeto, a distanásia pela ortotanásia. E, acima de tudo, é devolver à morte aquilo que a modernidade lhe tirou: dignidade, humanidade e amor.

 

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